sábado, 1 de agosto de 2009

Super-Homem

Ao se falar em Super-Homem, a primeira imagem que vem a nossa cabeça é a de um homem musculoso, com o cabelo impecavelmente penteado, com a capa tremulando ao vento, vestido de azul e vermelho, e a infalível cueca por cima da calça. Mas essa imagem clássica que Joe Shuster e Jerry Siegel criaram em 1938 e desde então só ganhou mais força, acabou se sobrepondo sobre a figura de Super-Homem idealizada por outra pessoa.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (
1844 - 1900), filosofo alemão, apresenta em sua Magnum opus “Assim Falou Zaratrusta”, a figura de um “Super-Homem” (adptação para o termo Übermensch) que não é apegado aos ideiais e\ou as regras sociais e que concretiza todos seus desejos, suprimindo assim seu lado Apolineo em detrimente de seu lado Dionisiaco, um homem com sede de poder pronto para desafiar as ideologias vigentes e criar novos em um constante processo de superação. Em suma é um homem que superaria a “Moral dos Escravos” e viveria plenamente a “Moral dos Senhores”.
É ironico ver como, apenas algumas decadas depois, essa expressão vira a denominar o exato oposto da figura idealizada por Nietzsche: o Superman americano.
O famoso ater-ego de Clark Ketn\Kal-El, que viria a se tornar arquetipo de super-herói, foi criado pelos seus idealizadores para representar os valores do povo do EUA como “Verdade, Justiça e Modo de Vida Americano”. O Superman não mata, não mente, luta sempre de mãos limpas, não usa truques, não esconde o rosto (o fato de ninguem reconhece-lo quando ele tira o óculos e muda o penteado não está em questão aqui, mesmo porque não há explicação plausivel), sai sempre a luz do dia, sobrevoa a todos de modo a ficar bem visivel, está sempre disposto a fazer tudo em prol do proximo, mesmo que isso lhe custe a vida. Até seu lendario uniforme com a “cueca por cima da calça” (que inspiraria o visual de inumeros outros heróis ao longo dos anos) não foi escolha dele, pois, na verdade, ele o usa porque foi sua mãe que o fez.
Esse personagem que incorpora e da vida a todo e qualquer ideal de “bondade”, “heroismo” e “altruismo” que a sociedade construiu está em total antitese com o
Übermensch de Nietzsche. O Superman é a personificasão de todos ideais de uma nação e, talvez, até mundial. Ele seria uma especie de SUPEREGO coletivo, assim como o Coringa, arqui-vilão do Batman, ou o anti-héroi Lobo seriam uma especie de ID coletivo.
Na verdade o termo Super-Homem é só uma adptação da nossa lingua (em ingles por exemplo o termo usado é Homos Superior, que provavelmente influenciou Stan Lee ao implementa-lo para designar os mutantes). O termo
Übermensch usado por Nietzsche poderia ser traduzido tambem como Além-do-Humano ou Sobre-Humano, o que só reforçaria a idea de paradoxo com o Super-Homem americano: o que o Superman senão o sobre-humano por excelencia? Ele que tem força sobre-humana, velocidade sobre-humana, resistencia sobre-humana, sentidos sobre-humanos, além de varios outros dons sobre-humanos como vôo e visão de calor. Superman mais do que qualquer outro tem condiçoes e poder para ser o Übermensch idealizado por Nietzsche, porque, se ele decidisse que assim seria, quem poderia dete-lo? Mas, ao contrario, ele se prende as regras morais da sociedade. Citando uma frase dita pelo escritor Jeph Loeb por meio de um pensamento do Batman na revista Superman/Batman #3: "Isto é uma interessante dicotomia. De diversas maneiras, Clark é o mais humano de nós todos. Então... ele lança fogos dos céus, e é difícil não pensar nele como um Deus. E como nós somos afortunados que isso não ocorra a sua mente.”
Em uma interpretação livre eu atribuiria essa intrínseca ligação com a moral e, principalmente, a ordem à sua fisiologia. O Superman tira todos seus poderes do proprio Sol/Apolo que, além de ser o deus que representa a harmonia, a moderação, a razão e a ordem, é primordialmente o deus do sol; e uma de suas únicas fraquesas é a magia, que está além das explicações da razão\ciencia, que está na ordem do sobre-natural, do arcano, do obscuro.
Se pensarmos bem veremos que Lex Luthor, arqui-inimigo do Superman criado em 1940, tem muito mais do
Übermensch de Nietzsche: Luthor concretiza todos seus desejos sem se importar com as regras morais, apresenta uma sede de poder única (levemos em conta que, no chamado Universo DC, Luthor já foi até presidente dos EUA), está sempre superando a si mesmo para poder rivalizar com o mais poderoso ser do universo, acredita que o “Ultimo Filho(Homem) de Kripton” está amputando a capacidade do homem evoluir e se adptar. Luthor esta sempre, em uma cruzada pessoal, desafiando a personificações de todos ideais e de toda moral da sociedade, como faria o Übermensch de Nietzsche. Então nos últimos setenta anos o Übermensch veem lutando diretamente com o “Ídolo dos Ídolos” que encarna os ideais criticados por Nietzsche em uma batalha ferrenha, mas nos ultimos setenta anos o Superman veem vencendo Lex Luthor.
Em sua teoria Nietzsche diz que a sociedade ao passar dos seculos foi cada vez mais exaltando o apolineo e suprimindo o dionisiaco (que hoje se restringe a setores a margem da sociedade, como o teatro). Esse pensamento culminou em 1938 com a figura do proprio Apolo (mais ordeiro e “perfeito” do que o original) vestindo as cores do EUA, com uma capa tremulante e uma cueca por cima da calça. Ironicamente essa figura que Nietzsche tanto criticava tornou imortal no maior idolo da cultura pop o nome que o filosofo dera a sua idea de homem que estaria sobre, estaria além de tudo que o personagem é, defende e representa. O homem do amanha que Nietzsche esperava ver nascer como o sol, acabou por ser, hoje, o Homem do Amanha de Metropolis. Ironicamente nós chamamos pelo mesmo nome o
Übermensch de Nietzsche e o Superman americano: o Super-Homem.

3 comentários:

  1. Superman é bom quando é Superman versus Superman!

    Seu psicológico é a única coisa capaz de freá-lo, e isso é o mais interessante, não há inimigos para ele, e o Lex só o humilha, quando joga na cara dele que o lado super é diferente do lado Homem(man, humano)!

    Parabéns ae Arthur, vou seguir o blog o/

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  2. Excelente! Adorei o texto e parabens pela iniciativa.
    Apesar de todos pensarem que o super é so um cara de colan que voa e bate em bandidos, existe um enorme lado filosofico nele, que é muito bem mostrado em seu texto.

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